terça-feira, 29 de abril de 2008

as seringueiras

Moro no centro há quase três anos. Os outros vinte anos da minha existência foram vividos na Freguesia do Ó, zona norte de São Paulo. Bairro acolhedor, festeiro e cheio de história. Minha família inteira sempre morou por lá. E os amigos, feitos pelo bairro, estão lá até hoje. Minha rua era tranqüila. Todos os dias, ao abrir a janela, me deparava com as enormes seringueiras que davam vida aquele pedaço de terra. Na verdade, a minha rua eram duas. Tinha a rua de cima e a rua de baixo. Eu morava na rua de baixo, mas conseguia ver a rua de cima. Aliás, a rua de cima era muito mais movimentada. Pois era o caminho mais rápido para chegar nas outras ruas do bairro. Nessa rua de cima existe uma valeta bem no meio. Com freqüência ouvia o barulho dos carros que por ali passavam e não reduziam a velocidade. Quando criança, reparava no jeito que meu pai passava por ela. Reduzia a marcha e ia pelo canto direito, bem devagar. Mesmo com esse truque, muitas vezes a carcaça do automóvel pegava o asfalto. Quando isso acontecia, sentia como se estivesse pisando no chão. Não sei se era uma coisa normal de se sentir ou era o carro do meu pai que precisava de conserto. Imaginava também que quando eu aprendesse a dirigir, ia fazer igual ao meu pai, pra não machucar o carro. Próxima a valeta mas, um pouco a frente, morava um casal de senhores, bem velhinhos. Depois do almoço, o senhor sentava-se embaixo de uma das seringueiras, em uma cadeira de praia daqueles modelos mais antigos com o encosto até metade das costas. A cadeira era vermelha e branca. Não sei calcular o tempo que ele permanecia ali, mas na minha impressão de criança ficava por uma hora ou mais. Sentado, apenas observando o movimento da rua de baixo, a minha. Ele ficava de costas para a sua casa e para os carros. Acho que preferia a minha rua, pois ali passavam cachorros, gatos, crianças e outros senhores como ele. Algumas vezes por ano acordava com o barulho de uma serra elétrica. Cerca de quatro homens podavam as árvores. Assim eu conseguia ver a rua de cima inteira. Todas as casas, as pessoas que circulavam, os carros, as bicicletas. E ficava imaginando, "quem pediu para fazer isso nas árvores?". Naquela época eu nem tinha noção do que era Subprefeitura, Prefeitura, etc. Não tinha noção de muitas coisas. E vivia mesmo assim.

2 comentários:

Fernanda disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fernanda disse...

Amiga, hoje parei um pouquinho para fixar os olhos no teu Blog. Muito bom quando a gente não sabe de nada e percebe, que mesmo assim, continua vivendo. Nénão?!