segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

madrugada

A cidade se transforma. É o silêncio das palavras, das atitudes. Para a maioria, o dia já terminou e, em poucas horas, outro virá. Dias e dias. E a madrugada se aproxima. Faróis acesos. Temperatura baixa. Portas cerradas. Solidão e alívio. Por algumas horas, São Paulo adormece. Não, não me atrevo a usar este verbo, pois ela jamais dorme profundamente. Cochilar. É mais apropriado. Faço parte dessa realidade paulistana. Eu e milhares de pessoas. Executivos, artistas, escritores, jornalistas, médicos, enfermeiros, trabalhadores com funções diversas, moradores de rua, cachorros, gatos...e aqueles que gostam da madrugada. Os que respiram e se alimentam dela para viver.

Rumo ao Centro, um homem que aparentava os seus quarenta anos rompe o silêncio:

- Boa noite, diz com sorriso amigável.

- Boa noite, respondo de prontidão.

- Aceita uma bala? – reparo que é Halls, sabor cereja. Duas coisas de que não gosto. Agradeço a gentileza.

- Se a senhora quiser trocar a estação (de rádio), fique à vontade. Ou se quiser desligar também.

- Por mim, está tudo bem. O senhor gosta de trabalhar nesse horário?, completei.

- Até que não é ruim, sabe?! As horas passam rapidinho...tem que trabalhar, né? E você?

- Ah...eu também. Acho que já me acostumei a trocar o dia pela noite, sorrio.

- É, a gente tem que trabalhar. Eu, por exemplo, já fiz de tudo. Não sei quantos anos você tem, mas eu trabalho há quase trinta anos. Já fui funcionário, já tive meu próprio negócio, que infelizmente não deu certo. Mas graças a Deus eu sempre consegui dar uma situação confortável pra minha família. Eu não tenho dinheiro, não sou bem de vida. Mas, tudo que eu posso eu consigo.

- Tem que batalhar mesmo. A gente só consegue as coisas assim – nesse momento, lembrei de uma série de coisas que já fiz e disse:

- Eu nunca imaginei que um dia estaria aqui, mas olha só como a vida é engraçada.

- É, moça...a gente tem que aproveitar as oportunidades. E olha que elas batem na porta somente uma vez, aconselhou meu companheiro da madrugada.

Apesar das idéias clichês, há um fundo de verdade em tudo isso.

- Boa noite, bom descanso e até um dia, finalizou a conversa.

- Boa noite pra você também. Até mais.

2 comentários:

Ieda disse...

Parabéns por esse início!!!
Vou passar por aqui sempre para um "bocadinho de prosa" contigo...
Amei o texto! E falar de São Paulo logo de início ganhou mais pontos.
Beijos
Iêda

André disse...

Gostei muito do post, pois mostra o cotidiano de pessoas que trocam o dia pela noite e essas pessoas não fazem São Paulo parar.