terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

amor de mãe

17h. Sábado à tarde. Cheiro de fumaça. Sujeira. Pés descalços. Rosto trabalhador. Comércio. Samba, pagode, axé e funk se misturam com o som dos carros, dos ônibus e dos diálogos. As culturas também são diversas. Brasileiros, nigerianos, bolivianos, venezuelanos, peruanos. União. Ou falta de opção. O que existe é uma verdadeira troca de hábitos e costumes. Cada um cede de um lado e a vida vai caminhando assim...

A cada esquina, uma história diferente, mas que se completam e acabam fazendo algum sentindo. Com o avanço das horas, as ruas ficam cada vez mais vazias. Semelhante aos dias de chuva forte, quando as pessoas se recolhem em suas casas, no trabalho ou em algum canto qualquer. Nem dá para imaginar que nos outros cantos da cidade o cenário é diferente. Várias cidades dentro de uma só. Às vezes é difícil conviver com todas elas ao mesmo tempo. Mas a gente tenta. Ou finge que tenta.

Cruzamento da avenida Rio Branco com a avenida Ipiranga. Vermelho em evidência. Corpo à mostra. Batom. Unhas compridas. Salto alto. Música. Mistério. Sexo.
Ao lado, homens e mulheres ganham a vida deixando outros homens e mulheres mais bonitos. Corte masculino? R$ 10. Corte feminino? R$ 20. Pé e mão? R$ 20. Roupa branca. TV ou rádio ligados. Uma fofoquinha aqui... outra ali...mas o trabalho é intenso. Loiro. Castanho. Castanho escuro. Grisalho. Branco. Loiro claro. Loiro claríssimo. Cereja. Caju. É um festival de cores e mais cores.

Olhos mel. Pele parda. Castanho, era o cabelo. Compridos e bem ajeitados com uma fita elástica da cor preta. De segunda a sábado ela se acomoda em seu banquinho. É banquinho mesmo, pois além da altura, é pequeno de largura. Isso só para alcançar as mãos de suas (seus) clientes. Acetona para retirar o esmalte anterior. Creme sob as unhas para amolecer a cutícula. E bota a mão na água. E fica lá um tempo. Não tira antes, não. Senão, não dá pra tirar a cutícula direitinho. E toca tirar cutícula. Lixa. Base, e quando necessário, até base fortalecedora. Só para as unhas ficarem mais fortes. Massagem. Às vezes, sai até bife dali. E entre uma mão e outra, um bocadinho de prosa:

- Você é de São Paulo mesmo?, pergunta com sotaque gostoso do Nordeste.

- Sou sim. Por que?, respondo e lanço outra pergunta com curiosidade.

- Porque você é tão calma pra quem nasceu em São Paulo. Parece que é de outra cidade.

Sorrio. A resposta me surpreendeu. Respondo:

- E você, não é de São Paulo, né?

- Sou da Bahia. Nasci numa cidadezinha no interior da Bahia. Cidade da roça, sabe?

- Mora aqui faz muito tempo?

- Vim pra São Paulo quando tinha 16 anos.

De certo fiz uma expressão de espanto e disse:

- Nossa! Você veio com quem?

- Oxê, vim sozinha mesmo. Com 14 anos já sai da casa dos meus pais lá na Bahia e fui trabalhar em casa de família. Meus pais ficaram doidinhos, mas hoje eles já se acostumaram com o meu jeito. Eu faço tudo que eu quero, não gosto de depender de ninguém, não. E sempre quis ter meu dinheirinho, pra comprar as minhas coisas.

- Tá certo. Eu também sempre gostei de ter as minhas coisas. É muito bom trabalhar e ter o dinheirinho da gente mesmo. Não tem coisa melhor, respondi aprovando a idéia da minha colega.

- Hum...ainda tenho que sair e ir no shopping comprar a mochila da minha filha.

- Quantos anos tem a sua filha?

- 13 anos. Ela disse que não quer mais a mochila da Hello Kitty, agora ela quer a mochila da PUC. Disse que viu na televisão e que essa mochila combina mais com ela.

Ela me contava isso com a típica preocupação de mãe que deseja agradar o filho a qualquer custo. Ainda mais ela, que teve uma infância simples. É natural que satisfaça todos os desejos da filha. E a filha virou o assunto principal. Me contou que a menina faz inglês, catecismo e que passou com notas boas no colégio. Seus olhos brilhavam...
Quando falou das correções que algumas vezes precisava submeter à menina, era como se vivesse a situação novamente. Mãe coruja e ciumenta.

- E quando a sua filha aparecer com um namorado com casa?, provoquei.

- Deus me livre. Não quero nem pensar nisso. Já falei pra ela: você vai estudar primeiro, depois você pensa em namorar.

A gente sabe que nem sempre as coisas acontecem na mesma ordem. Mas tudo bem. É um direito de mãe.

- Não deixo ela pegar ônibus sozinha. Acho que só ano que vem, quando ela fizer 14 anos.

Lembrei quando eu também não podia sair na rua sozinha. Muitas vezes eu queria comprar um pão e a única coisa que eu podia fazer era esperar minha mãe ou meu pai chegarem do trabalho. A rua ali toda convidativa e eu olhando pela janela do quarto. Achei engraçado quando ela me contou isso e sorri com satisfação e nostalgia.

10 minutos depois e o meu lugar foi ocupado por outra pessoa.

- Obrigada. Volte sempre.

- Obrigada. Corre pra dar tempo de comprar o presente da sua filha.

8 comentários:

Por Ricardo Cazarino disse...

Lindas palavras! Essa prosa poderia durar horas e as histórias sairiam naturalmente. Nessa cidade em que o tempo parece correr contra nós,muitas pessoas não param para observar ao redor,as pessoas por quem passam ou esbarram ao longo dos dias. Prosas simples assim, ao acaso, e com riqueza de detalhes são um presente para uma população escondida entre a metrópole desvairada!
Bjs.

Nana Lopes disse...

Gostei do seu cadin de prosa!

Ricardo disse...

Quando se ama tem que cuidar mesmo, é bom sentir isso. Dá vontade de conhecer o outro lado, o que a outra pessoa pensou quando te viu :)

Beijos

André disse...

Maravilho! Vou ser leitor frequente!
Parabéns pelo trabalho!!!

Yara disse...

uau... li num sopetão e fiquei a caça do resto... cadê o futuro? Onde vai dar esses caminhos que se cruzam e se separam num repente? A gente vai sonhando um futuro que não existe... é só luta!
Deliciosa leitura! Doido devaneio!

Léo Marques disse...

Gostei da história, esse lado imigração nordestina, típica de se ver em São Paulo.
Quanto ao texto, achei que ele começou muito bem e imprimiu um ritmo bom até os dois primeiros parágrafos. Depois disso, achei que ele poderia ter mostrado para o que veio. Mas gostei de sua forma de escrever. Continuarei vindo aqui.
As críticas foram construtivas, pelo amor de Deus.

Abraços

Andy disse...

sua narrativa é cativante.


a descrição também, uma fotografia quase...


me lembrou um cabeleireiro da rio branco, sul africano que fez meu cabelo há 2 anos.


muito legal

Léo Marques disse...

Ahhh, entendi...
Mas graças a deus que não ficou chateada com minhas críticas...
É verdade quando você diz que muita gente interessante, com histórias interessantes passam por nossas vidas. Algumas dariam um livro reportagem...
Continue por esse caminho...
Beijoss